Quem É Héricles Barreto De Malhação 1996?
CAPÍTULO 7: A SEGUNDA TEMPORADA E A TRANSFORMAÇÃO DO PERSONAGEM
Héricles não se limitou à primeira temporada. No ano seguinte, em 1996, Danton Mello deu continuidade ao papel na segunda temporada da série, desta vez não mais como protagonista absoluto, mas como personagem coadjuvante. Essa transição de protagonista para coadjuvante é, em si, um aspecto interessante da trajetória do personagem e revela algo sobre a natureza evolutiva de Malhação, que a cada temporada renovava parte de seu elenco e de suas histórias.
Na segunda fase, o cenário se ampliou para incluir o Rancho da Maromba, e novos personagens e dinâmicas foram introduzidos. O arco amoroso de Héricles também se transformou. Nessa nova etapa, seu personagem namorava Álex, vivida por uma jovem Camila Pitanga em uma de suas primeiras aparições na teledramaturgia. De maneira engenhosa, a narrativa conectou esse novo romance ao passado do personagem: Álex viria a se revelar prima de Cassandra, a grega por quem Héricles nutrira aquele amor platônico na primeira temporada. Essa amarração narrativa demonstrava o cuidado dos roteiristas em manter a coerência interna do personagem e em recompensar os telespectadores fiéis que acompanhavam sua jornada desde o início.
A própria personagem Álex protagonizou momentos dramáticos significativos envolvendo Héricles. Em determinado ponto da trama, diante do retorno de Álex, Héricles fica chocado e resolve largar tudo e ir embora. A moça, ao saber da decisão, tenta convencê-lo a ficar, chegando a lhe oferecer um empréstimo. Para a surpresa de todos, Héricles resolve permanecer, decidido a provar a Álex que conseguiria dar a volta por cima sozinho, sem a ajuda dela. Esse episódio revela um amadurecimento do personagem: o rapaz ingênuo da primeira temporada agora demonstrava orgulho, determinação e desejo de autonomia, recusando-se a depender financeiramente da pessoa amada. A evolução de Héricles, do forasteiro inseguro ao jovem que reivindica sua independência, acompanha o próprio crescimento de uma geração de telespectadores que cresceu junto com a novela.
A segunda temporada também trouxe mudanças no destino de outros personagens. Romão, o vilão da primeira fase e rival amoroso de Héricles, entrou na linha ao encontrar o amor com a personagem Mariana, interpretada por Susana Werner. Essa redenção do antagonista reflete a tendência de Malhação de humanizar seus personagens ao longo do tempo, evitando maniqueísmos simplistas. O universo da novela era dinâmico, e ninguém — nem mesmo o vilão — estava condenado a permanecer o mesmo.
CAPÍTULO 8: DANTON MELLO E A CONSTRUÇÃO DO PERSONAGEM
A interpretação de Héricles Barreto marcou um momento decisivo na carreira de Danton Mello. Para o ator, Héricles foi seu primeiro grande papel na televisão, em um horário especial da emissora. Em depoimentos posteriores, Danton sempre se referiu ao personagem com enorme carinho, afirmando que dele guardava apenas as melhores lembranças possíveis, e que se tratou de um projeto que deu muito certo, do qual todo o elenco tem orgulho de ter participado.
A descrição que o próprio ator fazia do personagem é precisa e reveladora. Segundo Danton, Héricles era um cara do interior, um rapaz ingênuo e romântico, que chega a uma cidade grande como o Rio de Janeiro e se depara com adolescentes que estavam em outras fases da vida — da curtição, da paquera e até das confusões. Essa percepção do contraste entre Héricles e seu entorno era central para a construção do personagem. O ator compreendia que sua personagem funcionava precisamente por ser diferente, por trazer outro ritmo, outra moral, outra forma de estar no mundo.
O sucesso de Malhação trouxe a Danton Mello uma experiência inédita de fama. O ator relembrava que chegava aos Estúdios Globo para gravar e precisava passar por uma multidão na porta — eram fotos, autógrafos, pessoas querendo entrar para assistir às gravações. Ele descrevia esse fenômeno como algo divertido e inusitado. Esse relato dá a dimensão do impacto que a novela teve sobre seus jovens intérpretes, muitos dos quais experimentavam pela primeira vez o assédio do público e a notoriedade nacional.
Danton Mello também refletiu sobre as razões do sucesso. Para ele, boa parte daquele êxito derivava da interação entre os personagens, da forma como os assuntos eram abordados e do próprio cenário onde a trama se passava — uma academia. O ator destacava ainda que o elenco era um grupo muito unido, uma turma de jovens, alguns já com experiência televisiva, como ele próprio, Fernanda Rodrigues e Juliana Martins, todos envolvidos e desejosos de que o projeto desse certo. E confessava que, embora tivessem a noção de que aquela obra seria importante em suas carreiras, não tinham a real dimensão do que Malhação se tornaria.
A consciência de que Héricles marcou uma geração é algo que Danton carrega com orgulho. Quando questionado se o público ainda se lembrava do personagem, sua resposta era afirmativa e bem-humorada: sim, até hoje. Ele definia Héricles como um personagem muito especial, que marcou uma geração inteira. Esse vínculo afetivo duradouro entre ator, personagem e público é um dos indicadores mais eloquentes da importância de Héricles na história da televisão brasileira.
CAPÍTULO 9: A SIMBOLOGIA DO NOME E A DIMENSÃO MITOLÓGICA
Vale aprofundar um aspecto que merece atenção especial: a carga simbólica embutida na construção de Héricles. O nome do personagem é uma variação evidente de Hércules, o herói máximo da mitologia greco-romana, conhecido por sua força sobre-humana e pelos doze trabalhos que realizou. Ao batizar seu protagonista com esse nome e, ao mesmo tempo, caracterizá-lo como um rapaz que não pratica exercícios e cuja força reside no intelecto, os autores de Malhação estabeleceram uma ironia rica e deliberada.
Essa ironia dialoga diretamente com o próprio título da novela. Malhação remete ao ato de malhar, de exercitar o corpo, de cultivar a força física. Inserir nesse universo um personagem chamado Héricles — que evoca o maior dos homens fortes da mitologia — mas que se recusa a malhar é uma jogada conceitual elegante. Héricles é o anti-Hércules, ou talvez um Hércules redefinido para os tempos modernos, em que a verdadeira força pode estar na sensibilidade, na cultura e na integridade moral, e não nos músculos. Em um espaço dedicado ao corpo, o personagem que carrega o nome do corpo perfeito é justamente aquele que prova que há outras formas de heroísmo.
A escolha de uma grega chamada Cassandra como amor platônico do protagonista reforça essa atmosfera de classicismo. Héricles estuda História, lê compulsivamente e nutre um amor por uma mulher do berço da civilização ocidental. Há, em toda essa construção, uma valorização do conhecimento, da tradição cultural e da reflexão — valores que o personagem encarnava e transmitia ao público jovem. Em um momento em que a televisão poderia simplesmente apostar no apelo do corpo e da beleza, Malhação escolheu, por meio de Héricles, celebrar também a inteligência e a sensibilidade. Essa dimensão simbólica, ainda que talvez não percebida conscientemente por todos os telespectadores adolescentes, contribuía para a riqueza e a profundidade do personagem.
O contraste entre o nome heroico e a personalidade contida também serve para humanizar Héricles. Ele não é um herói no sentido tradicional — não vence batalhas físicas, não derrota inimigos pela força. Seus “trabalhos” são de outra natureza: adaptar-se a um ambiente hostil, conquistar respeito sem recorrer à agressão, manter-se fiel a seus princípios, aprender a viver por conta própria longe de casa. Essas dificuldades de Héricles para aprender a viver de forma independente e para ser aceito pelos outros jovens serviam, aliás, como fio condutor da maioria das tramas. São desafios mais íntimos e cotidianos, mas não menos heroicos para um jovem que enfrenta o mundo pela primeira vez.
CAPÍTULO 10: HÉRICLES COMO PONTO DE IDENTIFICAÇÃO GERACIONAL
A grande força de Héricles, e de Malhação como um todo, residia em sua capacidade de identificação. Em 1995, como o elenco recordaria mais tarde, os jovens brasileiros não dispunham de redes sociais, celulares ou séries de streaming para se reconhecerem. A televisão era praticamente o único grande veículo de comunicação de massa capaz de mostrar a esses adolescentes suas próprias questões, angústias e dilemas refletidos na tela. Malhação chegou exatamente com essa força — a de permitir que os jovens se vissem representados diante de um grande público, algo que não existia antes daquele formato.
Héricles era um dos principais canais dessa identificação. Ele representava o jovem que chega a um lugar novo e precisa se reinventar, que enfrenta a insegurança de não pertencer, que carrega valores e sonhos que destoam do ambiente ao seu redor. Quantos adolescentes não se sentiram, em algum momento, como o forasteiro que não se encaixa? Quantos não viveram a tensão entre a fidelidade a um ideal e a tentação de um amor presente? Quantos não buscaram ser valorizados por quem são, e não pelo que aparentam? Héricles dava forma a essas experiências universais.
A própria estrutura social retratada na academia favorecia essa leitura. Héricles era um trabalhador, um auxiliar administrativo que precisava do emprego para se sustentar, inserido em meio a um grupo de adolescentes de classe média que frequentava a academia o dia inteiro sem preocupações financeiras. Essa diferença de classe acrescentava uma camada de realismo e de tensão social ao personagem. Héricles não era um privilegiado; era alguém que precisava conquistar seu espaço pelo mérito e pelo esforço, o que o aproximava de boa parte do público brasileiro. O preconceito social, aliás, era um dos temas que a novela se propunha a discutir, e a posição de Héricles como forasteiro de origem humilde o tornava um veículo natural para essa reflexão.
A relevância dessa função de espelho social não pode ser subestimada. Para um adolescente do Acre ou de qualquer canto distante do país, como o próprio Danton Mello observou, a possibilidade de ver na tela alguém que enfrentava dificuldades semelhantes às suas, ou que discutia abertamente questões muitas vezes silenciadas dentro de casa, era algo poderoso e potencialmente transformador. Héricles, com sua sensibilidade, seu deslocamento e sua integridade, oferecia a milhares de jovens a sensação de não estarem sozinhos em suas inquietações.
CAPÍTULO 11: O LEGADO DE HÉRICLES E DE MALHAÇÃO
A primeira temporada de Malhação não foi apenas um sucesso pontual; foi o início de um fenômeno que atravessaria décadas. A novela revolucionou a televisão brasileira ao colocar os dramas juvenis no centro de uma trama diária, abordando dilemas universais da adolescência como o primeiro amor, as inseguranças profissionais e os conflitos familiares. E foi o casal protagonista formado por Bella e Héricles que ancorou emocionalmente essa primeira fase, abrindo caminho para tudo o que viria depois.
O impacto comercial e cultural foi imediato. O sucesso da novela foi tão intenso que a Editora Globo acelerou o lançamento de uma revista mensal chamada Malhação, focada em esporte, saúde e beleza, investindo quinhentos mil reais no projeto. A trilha sonora também se tornou um marco, com “Assim Caminha a Humanidade”, de Lulu Santos, servindo de tema de abertura e se transformando em um hino de toda uma geração. O próprio Lulu Santos chegou a participar das gravações, cantando essa música ao lado de todos os personagens.
Como primeiro mocinho da história de Malhação, Héricles ocupa um lugar fundacional nesse legado. Ele ganhou o coração de Bella e também do público. Foi o protagonista que estabeleceu o tom emocional da franquia, que demonstrou que era possível conduzir uma narrativa juvenil de sucesso a partir de um personagem sensível e improvável. Cada protagonista de Malhação que veio depois, ao longo das mais de duas décadas de exibição da novela, caminhou de certa forma pela trilha aberta por Héricles Barreto.
A permanência do personagem na memória afetiva do público é notável. Décadas após o fim da primeira temporada, quando o Globoplay disponibilizou o acervo da novela em seu catálogo, personagens como Mocotó, Bella e Héricles foram celebrados como figuras inesquecíveis. A disponibilização da temporada para novas plataformas permitiu que tanto os adolescentes da época, hoje adultos, quanto as novas gerações pudessem reencontrar ou descobrir Héricles. Danton Mello, em seu recado aos novos espectadores, expressou o desejo de que se divertissem e gostassem daquele trabalho feito com carinho.
O reconhecimento da importância histórica da novela também se reflete em retrospectivas e celebrações. Quando Malhação completou vinte e cinco anos, parte do elenco original se reuniu para relembrar os bastidores e a experiência daquela estreia que mudou a televisão brasileira. E em listas que relembram os protagonistas de todas as temporadas da novela, Bella e Héricles ocupam, naturalmente, a posição inaugural — os pioneiros que iniciaram a saga.
CAPÍTULO 12: REFLEXÕES SOBRE A CONSTRUÇÃO DE UM ANTI-GALÃ
Há algo profundamente moderno na construção de Héricles Barreto, algo que merece uma reflexão mais demorada. Em uma indústria televisiva que tradicionalmente investia em galãs musculosos, conquistadores e seguros de si, Malhação optou por colocar no centro de sua primeira temporada um personagem que subvertia todos esses códigos. Héricles era o anti-galã: magro, leitor, virgem por escolha, avesso aos esportes, romântico ao ponto de manter um amor por correspondência com alguém em outro continente.
Essa escolha não era ingênua. Ao apostar em um protagonista improvável, os autores estabeleceram um pacto de identificação mais profundo com o público. O galã tradicional é admirado, mas raramente é alguém com quem o telespectador comum se identifica — ele é um ideal distante, uma fantasia. Héricles, ao contrário, era acessível, humano, falível. Ele errava, hesitava, sofria com sua condição de forasteiro, lutava para ser aceito. Era alguém em quem o adolescente médio podia se reconhecer, e não apenas alguém que ele gostaria de ser. Essa diferença é fundamental para entender o vínculo afetivo que o personagem estabeleceu.
Ao mesmo tempo, Héricles não era um perdedor nem um personagem patético. Sua sensibilidade e sua cultura eram apresentadas como qualidades genuínas, como fontes de valor. Ele conquistava o amor de Bella, uma moça inteligente e sensível, justamente por aquilo que era — não apesar de suas diferenças, mas por causa delas. A mensagem implícita era poderosa: ser diferente, ser sensível, ser intelectual não é um defeito a ser corrigido, mas uma virtude a ser celebrada. Para uma geração de jovens que crescia em meio a pressões sociais intensas para se encaixar em padrões, essa mensagem tinha um valor inestimável.
O fato de Héricles provocar tanto amizades quanto inimizades por onde passava também é significativo. Personagens que agradam a todos costumam ser blandos e esquecíveis. Héricles tinha arestas, tinha uma identidade marcada, e por isso gerava reações fortes. Sua autenticidade incomodava alguns e encantava outros, mas nunca passava despercebida. Essa qualidade — a de ser uma presença que não se podia ignorar — é uma das marcas dos grandes personagens da ficção. Héricles tinha personalidade suficiente para dividir opiniões, e isso o tornava vivo, real, memorável.
Convém ainda observar como a fidelidade era um valor central na caracterização do personagem. Héricles era fiel a Cassandra mesmo à distância, fiel a seus sonhos de estudar e viajar, fiel a seus princípios mesmo quando isso o colocava em desvantagem. Em um ambiente marcado pela superficialidade das paqueras e pela impulsividade dos relacionamentos juvenis, a constância de Héricles funcionava como um contraponto moral. Curiosamente, era até o vilão Romão quem compartilhava com ele essa qualidade da fidelidade, ainda que de modo distorcido — ambos eram fiéis à mesma mulher, Bella, cada um à sua maneira. Esse jogo de espelhos entre o mocinho e o vilão, unidos pela fidelidade e separados por tudo o mais, é um dos achados mais sutis da dramaturgia da temporada.
CAPÍTULO 13: O LUGAR DE HÉRICLES NA HISTÓRIA DA TELEDRAMATURGIA JUVENIL
Para encerrar a análise, é importante situar Héricles Barreto em um contexto mais amplo da história da teledramaturgia brasileira voltada para o público jovem. Antes de Malhação, a televisão brasileira já havia produzido conteúdos voltados para adolescentes, mas nenhum havia conseguido criar uma franquia tão duradoura e influente no formato de novela diária. Malhação inaugurou um modelo que se mostraria extraordinariamente resiliente, capaz de se reinventar a cada temporada, renovando elenco, cenário e temas, mas mantendo sempre o foco nas questões da juventude.
Héricles foi a pedra fundamental dessa construção. Como primeiro protagonista, coube a ele estabelecer os parâmetros emocionais e narrativos que definiriam a franquia. A combinação de romance, drama, humor e discussão de temas sociais que caracterizaria Malhação ao longo de décadas já estava presente, em estado germinal, na trajetória de Héricles. Seu romance com Bella forneceu o componente romântico; suas dificuldades de adaptação forneceram o drama; sua relação com personagens como Mocotó forneceram o humor; e sua condição de forasteiro de origem humilde, somada à sua virgindade consciente, forneceram o material para as discussões sociais.
A novela também acertou ao retratar a juventude não como um bloco homogêneo, mas como uma diversidade de experiências. Héricles, Mocotó, Bella, Luiza, Fabinho, Dado, Juli e tantos outros representavam diferentes formas de ser jovem, diferentes classes sociais, diferentes valores e diferentes dilemas. Essa pluralidade permitia que cada telespectador encontrasse algum personagem com quem se identificar. E Héricles, por sua singularidade, capturava precisamente aquela parcela do público que se sentia diferente, deslocada, mais afeita aos livros do que às festas, mais ao coração do que à conquista.
Vinte e cinco anos depois da estreia, a relevância histórica daquela primeira temporada permanece reconhecida. Trata-se de uma obra que, segundo análises retrospectivas, revolucionou a TV brasileira ao colocar os dramas juvenis no centro do palco. E nessa revolução, Héricles Barreto teve um papel de protagonista no sentido mais pleno da palavra — não apenas o protagonista de uma trama, mas o protagonista de uma transformação cultural. Ele foi o rosto sensível e improvável com que Malhação se apresentou ao Brasil, e esse rosto ficou gravado na memória de uma geração inteira.
CAPÍTULO 14: A DRAMATURGIA DA ESPERA E DO DESEJO CONTIDO
Um dos aspectos que tornam Héricles um personagem tão peculiar é a maneira como sua história é construída em torno de duas forças aparentemente opostas: a espera e o desejo. Por um lado, Héricles é o personagem da espera — ele aguarda o dia de juntar dinheiro suficiente para viajar à Europa, aguarda as cartas de Cassandra, aguarda a oportunidade de provar seu valor em um ambiente que inicialmente o rejeita. Por outro, ele é também o personagem do desejo contido — desejo por Bella, que cresce a contragosto de sua fidelidade prometida, desejo de pertencer ao grupo, desejo de uma vida que ainda não conquistou. Essa tensão entre o que se espera e o que se deseja confere ao personagem uma densidade psicológica incomum para um protagonista juvenil.
A dramaturgia da espera é particularmente interessante quando contextualizada na realidade tecnológica de 1995. O namoro de Héricles com Cassandra dependia de cartas que cruzavam o Atlântico, de um tempo de latência entre o envio e a resposta que hoje seria considerado insuportável. Essa lentidão forçada dava ao relacionamento um caráter quase epistolar e literário, lembrando os grandes romances escritos em forma de correspondência. Para um rapaz que estudava História e tinha mania de leitura, esse modo de amar à distância era perfeitamente coerente com sua personalidade. Héricles amava como amava nos livros — com paciência, com idealização, com a certeza de que o sentimento verdadeiro resiste ao tempo e à distância.
O desejo contido, por sua vez, é o que gera o drama. Quando Héricles começa a se encantar por Bella, ele se vê dividido entre a fidelidade ao ideal distante e a atração pela realidade presente. Essa hesitação não é covardia nem indecisão gratuita; é a manifestação de um caráter que leva os compromissos a sério. Héricles não é o tipo de rapaz que troca de afeto com facilidade. Sua dificuldade em ceder ao desejo por Bella revela um homem de princípios, alguém para quem o amor não é um jogo de conquista, mas uma questão de coerência interna. Essa profundidade moral é o que diferencia Héricles de tantos galãs intercambiáveis da ficção televisiva.
A espera e o desejo também se manifestam na relação de Héricles com o próprio futuro. Seu sonho de viajar à Europa em busca de Cassandra é, em certo sentido, um sonho de fuga — a promessa de uma vida melhor, mais plena, do outro lado do oceano. Mas, à medida que a trama avança e Héricles cria raízes na academia, faz amigos e se apaixona por Bella, esse sonho de fuga entra em conflito com a vida que ele está construindo no Rio de Janeiro. O personagem precisa, então, reconciliar o ideal distante com a realidade presente — um dilema profundamente humano, que ressoa com qualquer pessoa que já tenha precisado escolher entre o sonho imaginado e a vida real que se apresenta diante de si.
CAPÍTULO 15: A MASCULINIDADE ALTERNATIVA DE HÉRICLES
Vale a pena dedicar uma reflexão mais cuidadosa àquilo que talvez seja a contribuição mais subversiva de Héricles para a televisão de sua época: a proposta de uma masculinidade alternativa. Em 1995, os modelos masculinos predominantes na ficção televisiva brasileira tendiam a oscilar entre o galã viril e conquistador e o homem de ação corajoso e fisicamente imponente. Héricles não se encaixava em nenhum desses moldes. Ele era um homem definido pela sensibilidade, pela cultura e pela fidelidade — atributos que, no imaginário tradicional, eram frequentemente associados à fraqueza ou à falta de virilidade.
O contraste com Romão torna essa proposta ainda mais evidente. Romão era o campeão de jiu-jítsu, o homem que resolvia tudo na briga, o atleta agressivo e dominador. Ele encarnava o modelo de masculinidade baseado na força física e na imposição. Héricles, ao vencer o coração de Bella, oferecia ao público uma vitória simbólica da sensibilidade sobre a brutalidade, do intelecto sobre o músculo, do afeto sobre a dominação. Para os jovens telespectadores, essa narrativa transmitia uma mensagem importante: a de que existem formas de ser homem que não passam pela agressividade ou pela exibição de força.
A questão da virgindade masculina é central nessa proposta. Ao apresentar um protagonista que era virgem por escolha consciente e que se guardava para a pessoa amada, Malhação desafiava diretamente o estereótipo que associa a masculinidade ao número de conquistas. Héricles não tinha vergonha de sua virgindade — embora ela chamasse a atenção das meninas da academia, o personagem a vivia com naturalidade, como uma decisão pessoal coerente com seus valores. Essa representação era ousada para a época e abria espaço para que os jovens refletissem sobre suas próprias escolhas sem a pressão de cumprir um roteiro pré-determinado de virilidade.
É interessante notar como essa masculinidade alternativa de Héricles convivia com a masculinidade exuberante de Mocotó dentro da mesma narrativa. Mocotó era o mulherengo incurável, o conquistador que frequentava as aulas apenas para paquerar as meninas. A coexistência desses dois modelos — o contido e o expansivo, o fiel e o conquistador — enriquecia a representação da juventude masculina na novela. Malhação não impunha um único modelo de comportamento; apresentava a diversidade e deixava que o público tirasse suas próprias conclusões. Mas era significativo que o protagonista, o personagem com quem o público mais se identificava emocionalmente, fosse justamente o representante da masculinidade sensível e fiel, e não o do conquistador. Essa escolha narrativa sinalizava onde estavam as simpatias da obra.
CAPÍTULO 16: O INTERIOR E A METRÓPOLE — A GEOGRAFIA SIMBÓLICA DE HÉRICLES
A origem interiorana de Héricles não é um mero detalhe biográfico; é um elemento estruturante de sua identidade e de seu arco narrativo. Héricles veio do interior para o Rio de Janeiro, e esse deslocamento geográfico carrega um peso simbólico considerável. O interior, no imaginário brasileiro, costuma estar associado a valores como simplicidade, honestidade, ingenuidade e tradição. A metrópole, por sua vez, evoca complexidade, velocidade, sofisticação e, por vezes, corrupção moral. Héricles é o portador dos valores do interior em um ambiente metropolitano, e essa condição gera tanto conflitos quanto encantamentos.
A Barra da Tijuca, onde se situava a academia fictícia, não era um cenário escolhido ao acaso. O bairro representava, naquele momento, um símbolo de modernidade, de ascensão social e de um certo estilo de vida classe média alta carioca, voltado para o culto ao corpo e ao lazer. Inserir nesse ambiente um rapaz do interior, que precisava trabalhar para se sustentar e que não compartilhava daquela cultura do exercício físico, era criar um choque cultural produtivo do ponto de vista dramatúrgico. As dificuldades de Héricles para se adaptar e para ser aceito pelos outros jovens eram, em grande medida, dificuldades de quem vem de um mundo para outro radicalmente diferente.
Essa geografia simbólica também dialogava com a experiência de boa parte do público brasileiro. O Brasil dos anos 1990 era um país marcado por intensos fluxos migratórios internos, com milhões de pessoas deixando o interior e as cidades menores em busca de oportunidades nos grandes centros urbanos. A trajetória de Héricles — o jovem que sai do interior rumo à metrópole em busca de estudo e trabalho — ecoava a história de incontáveis famílias brasileiras. Ao colocar essa experiência no centro de sua narrativa, Malhação conferia a Héricles uma representatividade que ia muito além do universo restrito da Barra da Tijuca.
Há ainda uma dimensão de classe social embutida nessa geografia. Héricles não apenas vinha do interior; vinha com poucos recursos, precisando trabalhar como auxiliar administrativo e chegando a morar na própria academia. Ele estava inserido em um grupo de adolescentes de classe média que frequentava o lugar o dia inteiro, sem as preocupações financeiras que o afligiam. Essa diferença socioeconômica fazia de Héricles um observador privilegiado das contradições daquele mundo, e fornecia material para um dos temas que a novela se propunha a discutir: o preconceito social. Héricles encarnava a tensão entre o mérito e o privilégio, entre quem precisa conquistar seu espaço pelo esforço e quem já nasce inserido em um meio confortável.
CAPÍTULO 17: A TRILHA SONORA E A CONSTRUÇÃO EMOCIONAL DO PERSONAGEM
Nenhuma análise de Héricles estaria completa sem uma reflexão sobre o papel da música na construção emocional do personagem. Malhação sempre deu enorme importância à trilha sonora, e a primeira temporada não foi exceção. A canção tema de abertura, “Assim Caminha a Humanidade”, de Lulu Santos, tornou-se um verdadeiro hino geracional, ao ponto de o próprio cantor participar das gravações cantando a música ao lado dos personagens. Mas, para a história de Héricles, talvez ainda mais importantes fossem os temas musicais especificamente associados a ele.
O casal Héricles e Isabella tinha como tema a canção “Espelhos D’Água”, de Patrícia Marx. A existência de um tema musical próprio para o par romântico não é um detalhe menor; nas telenovelas brasileiras, a atribuição de um tema musical a um casal é um indicador de sua centralidade narrativa e um recurso poderoso de construção emocional. Cada vez que a música tocava, o público era convidado a mergulhar nos sentimentos do casal, a torcer por sua união, a sentir as tensões e os obstáculos de seu romance. “Espelhos D’Água” funcionava como a assinatura sonora do amor entre Héricles e Bella, ancorando emocionalmente o eixo romântico da temporada.
O próprio Héricles tinha, além disso, um tema musical individual: a canção “Coleção”, de Ezequias, aparece na trilha sonora como tema de Héricles. A atribuição de um tema individual a um personagem reforça sua importância dentro da narrativa e contribui para a construção de sua identidade junto ao público. A música cria associações, desperta memórias afetivas e ajuda a fixar o personagem na imaginação coletiva. Décadas depois, é provável que muitos dos que acompanharam a novela ainda associem certas melodias àquele rapaz sensível do interior.
A importância da trilha sonora para o sucesso de Malhação era tamanha que a novela lançou álbuns com as músicas, e o fenômeno musical caminhava lado a lado com o fenômeno dramatúrgico. Essa integração entre música e narrativa era parte da fórmula que tornou a novela tão envolvente para o público jovem. As canções não eram meros acompanhamentos; eram parte integrante da experiência emocional, e contribuíam decisivamente para a permanência de personagens como Héricles na memória afetiva de uma geração inteira.
CAPÍTULO 18: HÉRICLES E A INVENÇÃO DE UM MODELO DE PROTAGONISMO JUVENIL
Quando se observa a longa história de Malhação, que se estendeu por mais de duas décadas com sucessivas temporadas e renovações de elenco, fica evidente que Héricles Barreto cumpriu uma função fundacional: a de inventar, na prática, um modelo de protagonismo juvenil que se mostraria extraordinariamente fértil. Como primeiro mocinho da história da novela, ele estabeleceu o arquétipo do protagonista com quem o público jovem poderia se identificar — não um ídolo distante e inalcançável, mas um jovem comum, com dúvidas, dificuldades e sonhos reconhecíveis.
Esse modelo de protagonismo baseado na identificação, e não apenas na admiração, tornou-se uma das marcas registradas de Malhação. Ao longo das temporadas seguintes, a novela continuaria a apostar em protagonistas que encarnavam os dilemas reais da juventude de cada época. Mas foi Héricles quem inaugurou essa tradição. Sua condição de forasteiro, sua sensibilidade, sua origem humilde e sua integridade moral forneceram o molde a partir do qual tantos outros protagonistas seriam concebidos. Nesse sentido, Héricles não foi apenas o primeiro; foi o paradigma.
Vale destacar também que a estrutura coral de Malhação, com seu vasto elenco de personagens jovens, encontrou em Héricles um centro gravitacional eficaz. Embora a novela distribuísse suas tramas entre muitos personagens — de Mocotó a Luiza, de Bella a Dado —, era em torno de Héricles que boa parte das narrativas se organizava. Suas dificuldades de adaptação serviam de fio condutor, e seu romance com Bella fornecia o eixo emocional que sustentava o interesse do público ao longo dos capítulos. Essa capacidade de ser, ao mesmo tempo, um personagem singular e um ponto de articulação de toda a narrativa é uma das marcas dos grandes protagonistas, e Héricles a possuía em alto grau.
O reconhecimento desse papel fundacional aparece de forma recorrente nas retrospectivas dedicadas à novela. Sempre que se relembram os protagonistas de todas as temporadas de Malhação, Bella e Héricles ocupam a posição inaugural, como os pioneiros que iniciaram a saga. E quando o elenco original se reuniu para celebrar os vinte e cinco anos da novela, o carinho do público pelo casal e pelo triângulo amoroso que envolvia Héricles, Bella e Romão foi um dos temas centrais das lembranças compartilhadas. Poucos personagens conseguem permanecer tão vivos na memória coletiva por tanto tempo, e essa permanência é a prova definitiva de que Héricles foi muito mais do que um protagonista qualquer.
COMENTÁRIOS DE JEFFERSON EDUARDO:
“HÉRICLES, O HOMEM QUE APRENDEU A FAZER UM CAFÉ PERFEITO E UMA MACARRONADA DIVINA, SEGUNDO O GRANDE HUGO DISSE. COMEÇOU DE FORMA PEQUENA NA ACADEMIA, E ESTUDANDO NA FACULDADE DURANTE O PERÍODO NOTURNO, ELE NÃO DESISTIU DE SEUS SONHOS, AO CONTRÁRIO, DECIDIU QUE IRIA REALIZAR SEU SONHO, DE VISITAR A GRÉCIA, E REALMENTE FOI LÁ E FEZ.
ELE REALMENTE FEZ A VIAGEM A GRÉCIA, MAS QUANDO VOLTOU, ENCONTROU UMA REALIDADE TOTALMENTE “DESTRUÍDA”. A MULHER PELA QUAL ESTAVA APAIXONADO, A DONA DO SUSHIBAR (SUSHI BÁRBARO), A ALEXANDRA HAVIA IMPRESSO CARTAS DE DEMISSÃO E UTILIZOU A ASSINATURA DELE PARA DEMITI-LO DA REVISTA BUXIXO, E DA PRÓPRIA ACADEMIA MALHAÇÃO.
EM UMA VINGANÇA PELA SUA PRIMA CASSANDRA. LOGO, QUANDO CHEGOU DE VIAGEM, A REALIDADE DE HÉRICLES ERA LITERALMENTE “O FUNDO DO POÇO”, SITUAÇÃO ESTA QUE NÃO PIOROU JUSTAMENTE POR CAUSA DE SEUS AMIGOS QUE O AJUDARAM NESTE MOMENTO, LITERALMENTE FICANDO A ESPERANÇA, A ÚNICA QUE SOBROU DENTRO DA CAIXA DE PANDORA.
ELE FOI O PRIMEIRO A INTRODUZIR A INFORMÁTICA PARA OS ESPECTADORES DE MALHAÇÃO, COM OS SEUS COMPUTADORES CHAMADOS: “PANDORA” E “FÊNIX”. DOIS PERSONAGENS DE DUAS DAS MAIS FAMOSAS HISTÓRIAS DO MUNDO, UM TOQUE DE MESTRE NA OBRA, POIS PANDORA, FOI QUEM ABRIU OS HORIZONTES PARA HÉRICLES CONSEGUIR EVOLUIR EM SUA CARREIRA, VIRANDO REDATOR NA REVISTA. E FÊNIX VIRIA A SER UM PRESSÁGIO PARA OS PRÓXIMOS CAPÍTULOS, ONDE ELE TERIA DE RENASCER DAS CINZAS DA CATÁSTROFE E SE REERGUER COMO UM NOVO HOMEM.
A “MITOLOGIA” OU “RELIGIÃO” DA GRÉCIA ANTIGA, EM MINHA OPINIÃO, É UMA DAS MELHORES JÁ CRIADAS EM TODO O MUNDO, POSSUINDO UMA RICA CULTURA DE SERES ESPLENDOROSOS, INTRIGANTES E IMAGINATIVOS, NOS PERMITIU HISTÓRIAS FANTÁSTICAS QUE SOBREVIVERAM ATÉ OS DIAS DE HOJE.
EM UMA ÉPOCA DE DEUSES E MONSTROS, AS HISTÓRIAS SE TORNARAM TÃO FANTÁSTICAS QUE PASSARAM A ADENTRAR ATÉ MESMO NA CULTURA POPULAR BRASILEIRA, QUEM NÃO SE LEMBRA DAS SÉRIES DE HÉRCULES E XENA, A PRINCESA GUERREIRA NA TELEVISÃO. E É CLARO, DE SAINT SEIYA (OS CAVALEIROS DO ZODÍACO).
MESMO EM UM PAÍS RELIGIOSO COMO O BRASIL, AINDA HÁ ESPAÇOS PARA OUTRAS MITOLOGIAS E RELIGIÕES TOMAREM FORMA NA TV ABERTA, E ISSO É DE ESTREMA IMPORTÂNCIA PARA PROMOVER AMPLO DEBATE E ACESSO A CULTURAS DIVERSAS, QUE AJUDAM A DESENVOLVER O SENSO CRÍTICO E A HUMANIDADE. A PRESENÇA DE HÉRICLES E TAMBÉM DE OUTROS PERSONAGENS, COMO MARIA CANDELÁRIA, AJUDA A FORTALECER O ACESSO A CULTURAS QUE ANTES ERAM EXCLUÍDAS OU IGNORADAS PELOS BRASILEIROS.
EU NÃO ESTOU AQUI PARA DIZER QUAL RELIGIÃO É A CERTA, LONGE DISSO, POIS EM MINHA OPINIÃO A RELIGIÃO CERTA É A MINHA, E NA SUA OPINIÃO SERÁ A SUA. ESTOU DISCUTINDO QUÃO RICA FOI A INSERÇÃO DA RELIGIÃO DA GRÉCIA ANTIGA PARA ESTE PERSONAGEM.
OBSERVAÇÃO: SEGUNDO A WIKIPEDIA, O NOME ORIGINAL (DE NASCIMENTO) DO HERÓI NA MITOLOGIA GREGA É ALCIDES, DADO EM HOMENAGEM AO SEU BISAVÔ, ALCEU. MAIS TARDE, SEUS PAIS MORTAIS (ALCMENA E ANFITRIÃO) MUDARAM SEU NOME PARA HÉRACLES (QUE SIGNIFICA “GLÓRIA DE HERA”). ESSA FOI UMA TENTATIVA DE ACALMAR A FÚRIA DA DEUSA HERA (ESPOSA DE ZEUS), QUE O ODIAVA POR ELE SER FRUTO DE UMA TRAIÇÃO DO REI DOS DEUSES. O NOME HÉRCULES É, NA VERDADE, A VERSÃO ROMANA DO HERÓI, QUE SE POPULARIZOU MUNDIALMENTE NA CULTURA OCIDENTAL.”.
Eu sou um fã de longa data, e como acontecia com a maioria das pessoas, não consegui acompanhar todos os episódios em sequência. Dito isso, como homenagem aos 30 anos de Malhação, irei criar matérias sobre os personagens, antes de criar sobre os próprios episódios. Prometo melhorar com os próximos. E gostaria do retorno de vocês para comentar e interagir, pois foi para isso que criei esse site.
Meu nome é Jefferson Eduardo da Silva Nunes, este é o meu espaço criado de fã para fã, através da plataforma Blogger. As temporadas de Malhação estão disponíveis no catálogo da Globoplay.

Comentários
Postar um comentário